InícioUncategorizedSILAGEM DE GRÃOS ÚMIDOS: Como fazer e quais as vantagens

SILAGEM DE GRÃOS ÚMIDOS: Como fazer e quais as vantagens

O momento certo de comprar o milho pode definir o lucro da sua fazenda, e a silagem de grãos é a virada de chave

IImagine poder economizar: 5,10, 15% na saca de milho acertando o momento ideal de compra? Essa é uma excelente oportunidade para quem entende o comportamento do mercado de milho e se utiliza dos benefícios de ensilar esse material na fazenda para fazer proteção de preços em um dos ingredientes demandados em maior quantidade na dieta de bovinos (Figura 1 e 2).

Figura 1: Composição da dieta em ingredientes.

Figura 2: Dados simulados. Sujeitos a alterações em função da oferta de ingredientes e balanço nutricional.

Os benefícios da silagem de grãos vão além, ganhos em digestibilidade do amido na ordem de 20% (Da Silva et al., 2016), aumento na eficiência alimentar em gado de leite de 7 a 12% (Schonel 2016) e gado de corte de 12 a 22% (Jacovaci et al., 2021) tornam a técnica ainda mais atrativa.

Entretanto, é preciso saber fazer de forma correta! Estamos tratando de um processo de ensilagem, que se não feito de forma correta, não trará o resultado que desejamos. Nesse artigo iremos discutir como confeccionar silagens de grãos úmidos e reidratados da forma correta.

Grãos Úmidos vs. Grãos Reidratados

No campo, produtores e até mesmo nos técnicos acabamos chamando tudo de grãos úmidos. Entretanto precisamos ter muito claro no nosso conhecimento que são diferentes.

Silagem de grãos úmidos são confeccionadas com o milho colhido na umidade adequada para que os processos fermentativos ocorram de forma desejável (30 a 35%). Já, a Silagem de grãos reidratados são confeccionadas utilizando milho “seco” (13 a 15% de umidade) e adicionado água após a moagem para alcançar 35 a 40 % de umidade e assim ter uma boa condição fermentativa.

Mas como ficam aquelas lavouras colhidas com umidade entre 15 e 30 %? São consideradas silagens de grãos úmidos ou reidratados? Essa é uma questão que a literatura não estabelece de forma clara.

O que observar no híbrido para produção de silagem de grãos úmidos?

A escolha do híbrido para produção de silagens de grãos úmidos precisa ser bem assertiva. É necessário que o material possua uma debulha fácil em condições de alta umidade (>25 a 28%). Caso o híbrido plantado não apresente essa característica, ocorrerá grandes perdas de milho que ficam aderidas ao sabugo. Em decorrência dessa debulha ruim, grande quantidade de milho voluntário “Milho tiguera” aparecerá na área, se estabelecendo como ponte verde para propagação de pragas e doenças.

Outros pontos a serem analisados na escolha do híbrido são:

  • Grãos profundos (Facilita o processamento)
  • Materiais de endosperma farináceo (melhor dig amido)
  • Ausência de grãos ardidos e com fungos (mitigar micotoxinas)

Moagem

Grãos inteiros são completamente INDESEJAVEIS em qualquer silagem. Precisamos ter os equipamentos muito bem ajustados para promover um ADEQUADO processamento dos grãos.

Infográfico: Adaptado de Dias Junior. et al., 2016. J. Dairy Sci. 99:2719-2729.

Primeiro ponto de análise é o tipo de processador que será utilizado! A moagem será feita por moinho de martelo ou rolos?

Moinhos de martelo permitem moagem mais fina, ajustando o tamanho do crivo da peneira. Moinhos de rolo permitem ajustes aproximando e afastando os rolos processadores, porém, não consegue o mesmo nível de processamento comparado a moinhos de martelo.

Figura 4: Imagem ilustrativa de moinhos de martelo e rolos.

O ideal é sempre avaliar a distribuição de partículas e fazer os ajustes necessários de acordo com as recomendações do nutricionista.

Figura 3: Peneira para avaliação da distribuição de partículas.

Ele irá ponderar o tamanho de partículas em função da categoria animal (Gado de leite vs. Gado de corte), nível de inclusão na dieta (Alta vs. Baixa), tempo de estocagem (Curta vs. Longa) e tipo de cereal (Milho vs. Sorgo).

Grãos úmidos (processados com umidade > 28%) em moinhos de martelo, sugiro peneiras de crivo oscilando entre 5 e 10 mm. Independente do crivo da peneira, é FUNDAMENTAL monitorar se há presença de grãos inteiros. Em moinhos de rolo, configurar a distância entre os rolos de 1 a 3 mm, e monitorar!

Grãos secos (13 a 15% umidade) possuem maior dificuldade de processamento. A sugestão em moinhos de martelo é trabalhar com peneiras entre 2 a 5mm de crivo. Caso a moagem seja mais grosseira (peneiras > 3mm) tempos prolongados de estocagem são sugeridos para otimizar a digestibilidade do amido. Outro fator a ser considerado é que partículas mais grosseiras possuem maior dificuldade de hidratação.

Umidade

Água é um dos quatro fatores essenciais para que a fermentação do material ocorra de forma desejada e se torne uma boa silagem. Carboidratos solúveis, ausência de oxigênio e os microrganismos completam a lista.

Em silagem de grãos reidratados, onde a necessidade de água para elevar a umidade do material de 13 a 15% para 35 a 40% é alta, precisamos ajustar muito bem a operação para que não falte água durante o processo.

Acompanhe a seguinte situação: moagem executada por moinho de martelo processando 8 ton de milho grão (13% umidade) / hora. Para elevar esse material de 13% para 35% de umidade, serão necessários 340 litros de água/ton (Tabela 1), portanto 2720 litros de água/hora. Em algumas propriedades essa vazão pode ser ponto de atenção. Precisamos ser muito criteriosos para que a umidade ideal (35 a 40%) seja atingida!

Tabela 1: Quantidade de água para atingir 35% de umidade no material ensilado.

Durante a ensilagem o ideal é fazer avaliações de checagem da umidade através de air fryer ou outro equipamento qualquer com frequência de 2 a 3 X ao dia (ou quando julgar necessário). Caso não seja possível as mensurações por falta de equipamentos, uma dica pratica é observar a formação do “bolinho” na mão quando apertado.

Imagem 5: Silagem de sorgo grão reidratado (esquerda) e milho reidratado (direita) apertada na mão para formar bolinho.

Nas silagens de grãos úmidos, essa é uma preocupação a menos porque o material já se encontra com umidade adequada (>30%) ou próxima, necessitando menor volume adicional de água.

A falta de umidade correta, irá acarretar fermentações de baixa intensidade e qualidade. Nessas situações pode ocorrer reações de Maillard devido ao aquecimento excessivo do material. A silagem fica com coloração amarronzada (figura 6), favorecendo aparecimento de fungos e provavelmente micotoxinas.

Figura 6: silagem mal fermentada por falta de umidade com presença de  fungos (imagem a direita).

A coloração desejada após um bom processo fermentativo se assemelha a apresentada na imagem abaixo, “amarelinha”. 

Figura 7: silagem de grãos reidratados de milho na coloração desejada.

A correta umidade do material a ser ensilado, favorece o bom desenvolvimento das bactérias, principal grupo de microrganismos responsáveis por produzir os ácidos orgânicos que vão conservar a silagem e promover a proteólise (Junges et al. 2018). Proteólise é a quebra da matriz proteica que reveste os grânulos de amido. Quando ocorre a proteólise, a digestibilidade do amido aumenta, por que o acesso do amido pelas bactérias do rúmen fica mais fácil.

Não erre de forma alguma no ajuste da umidade e no processamento dos grãos, eles são responsáveis por grande parte da qualidade do processo.

Aditivos

Os aditivos microbianos, sem dúvida são os mais utilizados a campo. Entretanto, temos também os aditivos químicos como benzoato de sódio, sorbato de potássio, ácidos orgânicos tamponados entre outros que também entregam resultados muito interessantes. A finalidade de todos eles é promover uma melhor conservação do alimento e aumentar a estabilidade aeróbica.

Dentre os aditivos microbianos, os produtos que contém L. buchneri, são os que melhor se ajustam a silagem de grãos. Por ser uma bactéria heterofermentativa (bactérias que produzem além do ácido lático também acético e alguns outros produtos de fermentação), condicionam melhor estabilidade da silagem após a abertura (Morais et al., 2017). Outra resposta interessante é que esses microrganismos promovem uma maior digestibilidade do amido comparado a bactérias homofermentativas (Da silva, 2016).

É importante comentar que existem diferenças entre as cepas de L. buchneri. Portanto, no momento da escolha do inoculante solicite ao fornecedor validação cientifica daquela cepa específica.

Compactação e vedação

Todo processo de ensilagem, deve ser conduzido com capricho e obedecendo os fundamentos técnicos. Compactar bem a massa diminui a presença de oxigênio e favorece o processo fermentativo. Peso adequado de máquinas e tempo de compactação, são extremamente necessários. Busque atingir densidades próximas a 1000 kg de Matéria Natural/m³. Proteger todo o serviço executado é uma tarefa de muita responsabilidade! Economizar é importante, mas não a ponto de comprometer todo o trabalho realizado. Use lonas de alta qualidade e com barreira de oxigênio se possivel.

É reportado para plásticos convencionais (preto e branco) um volume transpassado de 1480 cm³ de oxigênio/m² de lona, enquanto para plásticos com barreira EVOH, 70 cm³ de oxigênio/m² (American Plastics Council, 2017). Quanto mais oxigênio penetrar no material, maior serão as perdas.

Conclusão

Encare a produção de silagem de grãos úmidos com muito profissionalismo. É uma grande oportunidade para otimizar a rentabilidade da fazenda, porém é necessário que os processos sejam bem executados. Lembre-se, há muito dinheiro e trabalho dentro de um silo de grão úmido, cuide bem dele!

Referências

Silva, N. C. (2016). Características das silagens de grãos de milho influenciadas pela reidratação e pela inoculação com L. buchneri sobre o desempenho de bovinos de corte confinados. Tese de Doutorado, UNESP Jaboticabal.

Schönell, E. P. (2016). Silagem de grãos de sorgo reconstituídos para vacas leiteiras: efeitos da conservação da silagem e respostas de aditivos. Dissertação, ESALQ/USP.

Jacovaci, F. A. et al. (2021). Effect of ensiling on the feeding value of flint corn grain for feedlot beef cattle: A meta-analysis. Revista Brasileira de Zootecnia, 50.

Junges, D. et al. (2015). Contribution of proteolytic sources during fermentation of reconstituted corn grain silages. XVII ISC, Piracicaba.

Morais, G. et al. (2017). Additives for grain silages: A review. Slovak J Anim Sci, 50:42–54.

American Plastics Council (1997). Understanding plastic film: its uses, benefits and waste management options. Headley Pratt Consulting.

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