Estratégias essenciais para controlar plantas voluntárias, evitar perdas de produtividade e proteger sua lavoura contra pragas e doenças.
1. Impactos do milho tiguera
Na agricultura brasileira, a sucessão soja-milho e o monocultivo, milho sobre milho, tem aumentado a ocorrência de milho tiguera, originado por grãos e espigas deixados na lavoura após a colheita. Estes por sua vez, permanecem viáveis no solo durante a estação seca e germinam com o início das chuvas, competindo com a cultura subsequente, tal como as plantas daninhas, que competem por água, luz e nutrientes, podendo acarretar perdas de até 41% da produtividade.
A ocorrência de plantas voluntárias (milho tiquera e plantas daninhas) com a cultura em sucessão pode resultar em perdas diretas ou indiretas como, dificuldade de colheita, competição por nutrientes e hospedeiro alternativo de pragas: lagarda do cartucho, percevejo e cigarrinha; e patógenos: Puccinia sorghi (ferrugem comum), Exserohilum turcicum (mancha de Helminthosporium), Curvularia luneta e nematoides.
A liberação de híbridos de milho tolerantes ao glifosato dificultou o controle do milho tiguera, especialmente quando cultivado em sucessão com soja RR. Nesses casos, o glifosato deixou de ser eficaz, exigindo o uso de herbicidas com outros mecanismos de ação, com destaque para os graminicidas inibidores da ACCase, também usados no controle de outras gramíneas resistentes ao glifosato, como azevém, capim-amargoso, e glufosinato em soja LL (LibertyLink) que controla bem o pé de galinha, a buva e a trapoeraba.
2. Estratégias de manejo eficientes do milho tiguera
2.1. Prevenção de perdas na colheita
O primeiro passo para o controle do milho tiguera começa na própria colheita. Reduzir perdas de grãos e espigas durante o processo mecânico é essencial. Para isso, é recomendável:
- Ajustar corretamente a colhedora (velocidade, altura do corte, sistema de trilha).
- Monitorar perdas de grãos e realizar manutenções preventivas.
- Colher no ponto ideal de umidade para evitar debulha prematura ou quebra de espigas.
Essas medidas contribuem significativamente para diminuir a quantidade de sementes viáveis deixadas no solo.
2.2. Manejo químico
O uso de herbicidas é uma das estratégias mais comum para o controle do milho tiguera. Entretanto, a escolha do herbicida depende da tecnologia genética do milho que originou o tiguera:
- Milho tiguera convencional: sensível ao glifosato. Pode ser controlado facilmente em lavouras de soja RR (Roundup Ready).
- Milho tiguera RR: requer herbicidas alternativos, como inibidores de ACCase (ex: haloxyfop ou clethodim) em mistura com adjuvantes e glufosinato, quando a sucessão for soja LL.
- Milho tiguera BTMAX: Sensível ao glifosato. Controlado facilmente em lavouras de soja RR.
É essencial seguir as recomendações técnicas dos fabricantes, respeitar os períodos de carência e evitar aplicações em condições adversas (chuva, vento, alta temperatura) para garantir a eficácia e segurança das operações.
3. Herbicidas mais utilizados no controle do milho tiguera
3.1.Glifosato (Inibidor da EPSPs)
- Efetivo apenas contra milhos convencionais e BTMAX.
- Quando usado corretamente, tem alto poder de controle em plantas jovens.
- Não controla milhos geneticamente modificados com resistência a glifosato.
3.2. Graminicidas (Inibidores da ACCase)
Principais ingredientes ativos:
- Clethodim (ex: Select®, Verdict®)
- Haloxyfop (ex: Verdict R®, Galant®)
- Quizalofop-P-tefuryl (ex: Targa®)
- Atuam seletivamente sobre gramíneas (como milho), sendo seguros para uso em culturas dicotiledôneas, como soja.
- Devem ser aplicados preferencialmente em estágios iniciais do milho tiguera (até 3–4 folhas) para garantir maior eficácia.
3.3. Glufosinato de amônio (Inibidor da glutamina sintetase)
- Utilizado em milho resistente a glifosato, mas sensível a glufosinato.
Controle eficiente em estádios inicais.
4. Estratégias de aplicação e cuidados técnicos
- Estádio de aplicação: plantas jovens (até 15 cm de altura ou 3–4 folhas) apresentam maior sensibilidade aos herbicidas. Plantas adultas têm cutícula mais espessa e são mais difíceis de controlar.
Condições ambientais:
- Aplicar em clima ameno (temperatura entre 20–30 °C).
- Evitar aplicação sob estresse hídrico ou após chuvas intensas.
- Umidade relativa acima de 60% favorece a absorção foliar.
- Adjuvantes: a adição de espalhantes, penetrantes e surfactantes é recomendada, especialmente em graminicidas, para garantir melhor aderência e penetração do produto.
Exemplo de programa de controle químico
Um programa eficaz de controle químico do milho tiguera pode seguir esta lógica:
4.1. Antes do plantio da soja (dessecação da área):
- Aplicar graminicida (clethodim) + adjuvante óleo mineral.
- Se o milho for convencional ou BTMAX, pode-se usar glifosato.
4.2. Pós-emergência da soja:
- Monitorar rebrota ou falhas no controle.
- Aplicar segunda dose de graminicida, se necessário, em plantas pequenas.
5. Considerações finais
O milho tiguera, representa um importante fator de risco para a produtividade e a sanidade das lavouras. O controle eficiente dessa planta exige uma abordagem integrada, envolvendo práticas preventivas, controle químico seletivo e ações culturais adequadas.
O sucesso dessas estratégias depende diretamente do planejamento, bem como do uso correto de defensivos agrícolas.
Referências
*Colaboração de Carolina Oliveira da Silva, Coordenadora de Serviços Técnicos da Sementes Biomatrix nas regiões do Mato Grosso do Sul e Norte de São Paulo, Engenheira Agrônoma, Mestre e Doutora em produção vegetal pela Universidade Federal de Uberlândia.
EMBRAPA. Manejo integrado de plantas daninhas. Embrapa Milho e Sorgo, 2023.
CARAMORI, P. H. et al. Impactos do milho tiguera na cultura da soja e estratégias de controle. Revista Plantio Direto, 2022.
ANDRADE, L. A.; SILVA, J. R. da. Uso de herbicidas para o controle de milho voluntário em lavouras de soja. Revista Brasileira de Herbicidas, v. 20, n. 2, 2021.
CONAB. Boletim da safra de grãos – 2024/2025. Companhia Nacional de Abastecimento.


























